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06/06/2009

Pequeno Dicionário de Palavras ao Vento / Adriana Falcão/ Fragmentos do livro

Arrependimento é uma inútil vontade de pedir ao tempo para voltar atrás;
Belo é tudo que faz os olhos pensarem ser coração;
Carnaval , esta oportunidade praticamente obrigatória de ser feliz com data marcada;
Desculpas, é uma palavra que pretende ser beijo;
Efêmero é quando o eterno passa logo;
Escuridão é o resto da noite, se alguém recortar as estrelas;
Fé é toda certeza que dispensa provas;
Gente: carne, osso, alma e sentimento, tudo isso ao mesmo tempo;
História: quando todas as palavras do dicionário ficam à disposição de quem quiser contar qualquer coisa que tenha acontecido ou sido inventada;
Idade, aquilo que você tem certeza que vai ganhar de aniversário, queira ou não queira;
Janela`, por onde entra tudo que é lá fora;
Lá, onde a gente fica pensando se está melhor ou por do que aqui;Lágrima, sumo que sai pelos olhos quando se espreme um coração;
Loucura, coisa que quem não tem só pode ser completamente louco;
Madrugada, quando vivem os sonhos;
Noiva, moça que geralmente usa branco por fora e vermelho por dentro;
Óbvio, não precisa explicar;
Pecado, algo que os homens inventaram e então inventaram que foi Deus que inventou;
Q, tudo que tem um não sei quê de não sei quê.
Rebolar, o que se tem que fazer para chegar lá;
Segredo, aquilo que você está louco para contar;
Sexo: quando o beijo é maior do que a boca;
Talvez, resposta pior que ¨não¨, uma vez que ainda deixa, meio bamba, uma esperança;
Tanto, um muito que até ficou tonto;
Último, que anuncia o começo de outra coisa;
Único: tudo que, pela facilidade de virar nenhum, pede cuidado;
Vazio, um termo injusto com a palavra nada;
Xingamento é uma palavra ou frase destinada a acabar com a alegria de alguém;
Zíper, fecho que precisa de um bom motivo para ser aberto;

02/06/2008

25/04/2008

Devaneios - Adriana Falcão

O estudo das enfermidades mentais, objeto da psiquiatria, é assunto muito complexo. Só com muitos anos de pesquisa e dedicação se poderia discorrer seriamente sobre o tema. Diagnosticar um psicótico, um esquizofrênico, um neurótico ou um psicopata apenas por conhecimento de causa, sem o auxílio da ciência, seria loucura. Partindo da premissa, porém, de que "de médico e de louco todo mundo tem um pouco", o objeto deste documento é discutir as semelhanças e diferenças entre os quatro tipos básicos de cidadão: os doidos, os loucos, os birutas e os malucos. Vale registrar, para evitar futuras complicações familiares ou jurídicas, que as teses aqui levantadas não pretendem ter valor científico, são apenas frutos da observação detalhada de uma grande amostra do ser humano, todo mundo por aí. Essa investigação baseou-se em minuciosa análise dos comportamentos do indivíduo; em outras palavras, na mania (obcecação resultante de desejo imoderado) de ficar reparando no povo.A participação, ainda que involuntária, de maridos, mulheres, casais de namorados, adolescentes, mães, bêbados e políticos foi de enorme importância para a elaboração deste modesto ensaio.A questão aqui trata da diagnose das esquisitices dos seres humanos normais, sem a intenção de criticar, justificar, teorizar ou se solidarizar com os exemplos citados.Também não é nosso objetivo apontar soluções, ofender ninguém nem enlouquecer ainda mais as criaturas. Restringimo-nos a organizar resumidamente a nossa espécie. 1 – O louco.Indivíduo capaz de cometer loucuras como adentrar a casa da namorada/namorado às 4 da manhã cantando Roberto Carlos, desafiar assaltos e engarrafamentos para comprar determinado tipo de torta de limão que só se encontra do outro lado da cidade, acreditar que seu pedido será realizado se o próximo carro que passar for vermelho, mesmo que esse pedido seja um aumento de salário. A mente dos loucos funciona loucamente sem parar – um pensamento puxa outro, que puxa outro, que puxa outro –, tornando-se difícil manter uma linha lógica de raciocínio, o que é que eu estava dizendo mesmo? Ah, eu estava falando dos loucos, agora vou passar para os malucos. 2 – O maluco.Tipo de louco com fortes inclinações para artes plásticas, filosofia, teatro, física nuclear e delírios de qualquer natureza. Maluco geralmente gosta de bar, de fumaça, de incenso, de pôr-do-sol, de localizar as Três Marias no cinturão da constelação de Órion, de questionar, por exemplo, "Se a levada do bongô fosse tum-tum-tum, em vez de tum, não dava um som mais maneiro?" ou "Já pensou se o dia andasse pra trás, pra começar de noite e terminar de manhãzinha?", e de jogar conversa fora, qualquer uma serve, só para passar o tempo, sem nem perceber que está tomando o tempo dos outros com besteira, opa, percebi. 3 – O doido.Como o doido geralmente está doidinho, torna-se fácil identificá-lo. Existem doidos para casar, doidos para separar, doidos para que chegue logo a sexta-feira, doidos por futebol, por internet, por sexo, por sucesso, por aspargos ou por qualquer coisa pela qual eles possam ficar doidos. É comum o portador da doidice não conseguir identificar por que está doido, o que provoca enorme ansiedade e faz o pobre do doido ficar doido para arranjar um motivo qualquer para ficar doido sossegado. 4 – O biruta.Birutas apresentam variados impulsos de caráter lúdico, tais como: atravessar a rua dançando mambo, imitar um urubu-rei em cima do telhado, fingir que é guarda de trânsito, provocar tropeções, passar trotes, dar sustos, amarrar o rabo do gato ou fazer verso.Foram constatados ainda vários casos de associações.Existem loucos malucos. Ou malucos muito doidos. Ou doidos meio birutas. Ou birutas, completamente loucos, que ficaram irremediavelmente doidos por qualquer maluquice.Esse é o caso daqueles que prometeram escrever uma crônica e não conseguiram.

Trecho do Livro 'A Máquina'- Adriana Falcão

"Seu coração disse pra sua cabeça, vá,
e sua cabeça disse pra sua coragem, vou,
e sua coragem respondeu, vou nada,
mas sua boca não ouviu e beijou."

Adriana Falcão - Mania de explicação

Solidão é uma ilha com saudade de barco. Saudade é quando o momento tenta fugir da lembrança para acontecer de novo e não consegue. Lembrança é quando, mesmo sem autorização, seu pensamento reapresenta um capítulo. Autorização é quando a coisa é tão importante que só dizer "eu deixo" é pouco. Pouco é menos da metade. Muito é quando os dedos da mão não são suficientes. Desespero são dez milhões de fogareiros acesos dentro de sua cabeça. Angústia é um nó muito apertado bem no meio do sossego. Agonia é quando o maestro de você se perde completamente. Preocupação é uma cola que não deixa o que ainda não aconteceu sair de seu pensamento. Indecisão é quando você sabe muito bem o que quer mas acha que devia querer outra coisa. Certeza é quando a idéia cansa de procurar e pára. Intuição é quando seu coração dá um pulinho no futuro e volta rápido. Pressentimento é quando passa em você o trailer de um filme que pode ser que nem exista. Renúncia é um não que não queria ser ele. Sucesso é quando você faz o que sempre fez só que todo mundo percebe. Vaidade é um espelho onisciente, onipotente e onipresente. Vergonha é um pano preto que você quer pra se cobrir naquela hora. Orgulho é uma guarita entre você e o da frente. Ansiedade é quando sempre faltam 5 minutos para o que quer que seja. Indiferença é quando os minutos não se interessam por nada em especial. Interesse é um ponto de exclamação ou de interrogação no final do sentimento. Sentimento é a língua que o coração usa quando precisa mandar algum recado. Raiva é quando o cachorro que mora em você mostra os dentes. Tristeza é uma mão gigante que aperta seu coração. Alegria é um bloco de Carnaval que não liga se não é Fevereiro... Felicidade é um agora que não tem pressa nenhuma. Amizade é quando você não faz questão de você e se empresta pros outros. Decepção é quando você risca em algo ou em alguém um xis preto ou vermelho. Desilusão é quando anoitece em você contra a vontade do dia. Culpa é quando você cisma que podia ter feito diferente, mas, geralmente, não podia. Perdão é quando o Natal acontece em outra ápoca do ano. Desculpa é uma frase que pretende ser um beijo. Excitação é quando os beijos estão desatinados pra sair de sua boca depressa. Desatino é um desataque de prudência. Prudência é um buraco de fechadura na porta do tempo. Lucidez é um acesso de loucura ao contrário. Razão é quando o cuidado aproveita que a emoção está dormindo e assume o mandato. Emoção é um tango que ainda não foi feito. Ainda é quando a vontade está no meio do caminho. Vontade é um desejo que cisma que você é a casa dele. Desejo é uma boca com sede. Paixão é quando apesar da palavra "perigo" o desejo chega e entra. Amor é quando a paixão não tem outro compromisso marcado. Não. Amor é um exagero... também não. É um "desadoro"... Uma batelada? Um exame, um dilúvio, um mundaréu, uma insanidade, um destempero, um despropósito, um descontrole, uma necessidade, um desapego? Talvez porque não tivesse sentido, talvez porque não houvesse explicação, esse negócio de amor não sei explicar...