01/07/11

Destino Traçado no berço - Caio Fernando de Abreu

Eu sei que vou.
Insisto na caminhada.
Se amanhã o que eu sonhei não for bem aquilo, eu tiro um arco iris da cartola.
E refaço
Colo
Pinto e bordo.
Porque a força que vem de dentro é maior.
Maior que todo mal que existe no mundo.
Maior que todos os ventos contrários.
É maior porque é do bem.
E nisso sim, acredito até o fim.
O destino da felicidade, me foi traçado no berço.

28/06/11

Caio Fernando de Abreu- Fragmento máscara colorida

Te mastigo dentro de mim enquanto me apunhalas com lenta delicadeza deixando claro(...) Que nada devo esperar além dessa máscara colorida.

23/03/11

Fragmento -Caio Fernando de Abreu - Natural

- E que uma palavra ou um gesto, seu ou meu, seria o suficiente para modificar nossos roteiros. silêncio - Mas não seria natural. - Natural é as pessoas se encontrarem e se perderem. - Natural é encontrar. Natural é perder. - Linhas paralelas se encontram no infinito. - O infinito não acaba. O infinito é nunca. - Ou sempre. .

18/01/11

Quando um bebê decide vir ao mundo...

Uma mãe é mãe desde o primeiro instante.
Mesmo quando a vida ainda é um minúsculo ser implantado no ventre, a gente já é mãe do coração.
Todo nosso pensamento, todo nosso cuidado se volta para esse serzinho que, tão minúsculo, já provoca emoções tão grandes.
A simples descoberta já nos traz um turbilhão de emoções inexplicáveis. A vida nunca mais vai ser a mesma.
E nos perguntamos: "será que vou ser uma boa mãe?"
"Será que vou saber cuidar do meu bebê?"
Mas uma mãe não nasce mãe e não aprende a ser em escolas.
Uma mãe é e isso basta.
Mãe sente, mãe adivinha, mãe aprende sofrendo, mãe sofre aprendendo.
Benditas são as mulheres!
Se elas suportam uma das maiores dores, sentem sem dúvida a maior das felicidades.
Uma mulher grávida é sempre algo sublime, ela tem algo de anjo e santo, uma aura invisível que reflete e ilumina seu rosto.
Ela carrega nela a vida, um pedacinho dela mesma que vai um dia ter vida própria e isso é maravilhoso e assustador ao mesmo tempo.
Deve ser por isso que nos tornamos tão emotivas e choramos tão facilmente.
Deve ser essa a razão de querermos estar satisfeitas em todos os nossos desejos.
Que a gravidez não é uma doença é verdade.
Mas que não digam que é normal e que a pessoa pode viver normalmente, pois isso não é verdade.
Todo o equilíbrio físico, psicológico e emocional fica balançado.
Há ainda hoje civilizações onde as mulheres grávidas são tratadas como seres especiais e divinos.
Mãe que está descobrindo as alegrias da maternidade agora, precisa saber de uma coisa: se você tem medo de não saber o suficiente para ensinar ao seu bebê os caminhos da vida, saiba que é com ele que você vai aprender a trilhar muitos desses caminhos.
Viva a sua gravidez em todos os seus instantes e não se preocupe se está fazendo ou se fará as coisas certas ou erradas. Seu coração vai te ditar, confie nele!
Aproveite ao máximo cada segundo, pois cada momento é único e esse privilégio não é dado a todos.
Fale com seu bebê, faça carinho nele, sorria pra ele; viva o mais serenamente possível. Acredite: esses momentos são preciosos!...
E, sobretudo, você é uma pessoa agraciada!
Deus nos escolheu, para que fizessem parte um do outro.
Ele saberá, certamente, conduzi-los nesse maravilhoso caminho.

05/01/11

Carta Anônima - Caio Fernando Abreu

Tenho trabalhado tanto, mas penso sempre em você.
Mais detardezinha que de manhã, mais naqueles dias que parecem poeira
assentada aos poucos e com mais força enquanto a noite avança.
Não são pensamentos escuros, embora noturnos. Tão transparentes
que até parecem de vidro, vidro tão fino que, quando penso mais
forte, parece que vai ficar assim clack! e quebrar em cacos, o
pensamento que penso de você. Se não dormisse cedo nem estivesse
quase sempre cansado, acho que esses pensamentos quase doeriam
e fariam clack! de madrugada e eu me veria catando cacos de vidro
entre os lençóis. Brilham, na palma da minha mão. Num deles, temuma borboleta de asa rasgada. Noutro, um barco confundido com alinha do horizonte, onde também tem uma ilha. Não, não: acho que ailha mora num caquinho só dela. Noutro, um punhal de jade. Coisasassim, algumas ferem, mesmo essas que são bonitas. Parecem filme,livro, quadro. Não doem porque não ameaçam. Nada que eu pensode você ameaça. Durmo cedo, nunca quebra. Daí penso coisas bobasquando, sentado na janela do ônibus, depois de trabalhar o diainteiro, encosto a cabeça na vidraça, deixo a paisagem correr, epenso demais em você. Quando não encontro lugar para sentar, oque é mais freqüente, e me deixava irritado, descobri um jeitoengraçado de, mesmo assim, continuar pensando em você. Meseguro naquela barra de ferro, olho através das janelas que, nessaposição, só deixam ver metade do corpo das pessoas pelas calçadas,e procuro nos pés daquelas aqueles que poderiam ser os seus. (A teus pés, lembro.). E fico tão embalado que chego a me curvar, certoque são mesmo os seus pés parados em alguma parada, algumaesquina. Nunca vejo você - seria, seriam? Boas e bobas, são ascoisas todas que penso quando penso em você. Assim: de repente aodobrar uma esquina dou de cara com você que me prega um susto dementirinha como aqueles que as crianças pregam umas nas outras.Finjo que me assusto, você me abraça e vamos tomar um sorvete,suco de abacaxi com hortelã ou comer salada de frutas em qualquerlugar. Assim: estou pensando em você e o telefone toca e corta omeu pensamento e do outro lado do fio você me diz: estou pensandotanto em você. Digo eu também, mas não sei o que falamos emseguida porque ficamos meio encabulados, a gente tem muito pudorde parecer ridículos melosos piegas bregas românticos pueris banais.Mas no que eu penso, penso também que somos meio tudo isso, nãotem jeito, é tudo que vamos dizendo, quando falamos no meupensamento, é frágil como a voz de Olívia Byington cantando Villa-Lobos, mais perto de Mozart que de Wagner, mais Chagal que VanGogh, mais Jarmush que Win Wenders, mais Cecília Meireles queNelson Rodrigues.Tenho trabalhado tanto, por isso mesmo talvezando pensando assim em você. Brotam espaços azuis quando penso.No meu pensamento, você nunca me critica por eu ser um poucotolo, meio melodramático, e penso então tule nuvem castelo seda perfume brisa turquesa vime. E deito a cabeça no seu colo ou vocêdeita a cabeça no meu, tanto faz, e ficamos tanto tempo assim que aterra treme e vulcões explodem e pestes se alastram e nós nempercebemos, no umbigo do universo. Você toca minha mão, eu tocona sua.Demora tanto que só depois de passarem três mil dias consigoolhar bem dentro dos seus olhos e é então feito mergulhar numaságuas verdes tão cristalinas que têm algas na superfície ressaltadascontra a areia branca do fundo. Aqualouco, encontro pérolas. Sei queé meio idiota, mas gosto de pensar desse jeito, e se estou em pé noônibus solto um pouco as mãos daquela barra de ferro para meucorpo balançar como se estivesse a bordo de um navio ou de você.Fecho os olhos, faz tanto bem, você não sabe. Suspiro tanto quandopenso em você, chorar só choro às vezes, e é tão freqüente. Caminhomais devagar, certo que na próxima esquina, quem sabe. Não tenho tido muito tempo ultimamente, mas penso tanto em você que na hora de dormir vez emquando até sorrio e fico passando a ponta domeu dedo no lóbulo da sua orelha e repito repito em voz baixa te amo tanto dorme com os anjos. Mas depois sou eu quem dorme e sonha, sonho com os anjos. Nuvens, espaços azuis, pérolas no fundodo mar. Clack! como se fosse verdade, um beijo.

24/10/10

Um porre/ Caio Fernando de Abreu

"Talvez isso mude. Talvez você entre na minha vida sem tocar a campainha e me sequestre de uma vez. Talvez você pule esses três ou quatro muros que nos separam e segure a minha mão, assim, ofegante, pra nunca mais soltar.
Ou talvez eu só precise de férias, um porre e um novo amor. Porque no fundo eu sei que a realidade que eu sonhava afundou num copo de cachaça e virou utopia".

17/10/10

E eu tão singular me vi plural."

"Sonhei e fui, sinais de sim,
Amor sem fim, céu de capim,
E eu olhando a vida olhar pra mim.
Sonhei e fui, mar de cristal,
Sol, água e sal, meu ancestral,
E eu tão singular me vi plural.
Sonhei e fui, num sonho à toa,
Uma leoa, água de Goa,
E eu rogando ao tempo:
- Me perdoa
E eu rogando ao tempo:
- Me perdoa
Sonhei pra mim, tanta paixão,
De grão em grão, verso e canção,
E eu tentando nunca ouvir em vão.
Sonhei, senti, sol na lagoa,
Céu de Lisboa, nuvem que voa,
E um país maior que uma pessoa.
Sonhei e vim, mares de Espanha,
Terras estranhas, lendas tamanhas,
E eu subi sorrindo esta montanha.
E eu subi sorrindo esta montanha.
Sonhei, enfim, e vejo agora,
Beijo de Aurora, ventos lá fora,
E eu cantando a Deus e indo embora.
E eu cantando a Deus e indo embora."

Meu chão fiz de mola

Eu vou nomeando meus sonhos um por um. Colocando metas, fazendo projetos, com os dedos cruzados e minhas melhores vibrações.
Claro que eu me frustro, faz parte da vida.

Mas meu chão eu fiz de mola.
Posso cair todos os dias, mas o resultado da minha queda é o impulso.

03/10/10

Caio Fernando de Abreu/ Arco Iris / Frase

Mas a vontade é te convidar
pra sair por aí sem compromisso
brincar de tobogã no arco-íris
qualquer coisa assim:
você topa?

Martha Medeiros/ Fragmento/ por inteiro

"Não passam as dores, também não passam as alegrias.

Tudo o que nos fez feliz ou infeliz serve pra montar o quebra-cabeça da nossa vida, um quebra-cabeça de cem mil peças.

Aquela noite que você não conseguiu parar de chorar, aquele dia que você ficou caminhando sem saber para onde ir, aquele beijo cinematográfico que você recebeu, aquela visita surpresa que ela lhe fez, o parto do seu filho, a bronca do seu pai, a demissão injusta, o acidente que lhe deixou cicatrizes, tudo isso vai, aos pouquinhos, formando quem você é.

Não há nenhuma peça que não se encaixe.

Todas são aproveitáveis.

Como são muitas, você pode esquecer de algumas, e a isso chamamos de "passou".

Não passou. Está lá dentro, meio perdida, mas quando você menos esperar, ela será necessária para você completar o jogo e se enxergar por inteiro."

02/10/10

Frase / Tati Bernardi/ Amar menos

Aprendi a amar menos, o que foi uma pena,

aprendi a ser mais cínica com a vida,

o que também foi uma pena, mas necessário.

Viver pra sempre tão boba e perdida teria sido fatal

24/09/10

Natureza Viva - Morangos Mofados- Frase- Caio Fernando de Abeu

" As pessoas falam coisas, e por tras do que falam há o que sentem,
e por trás do que sentem, há o que são e nem sempre se mostra ..."

20/09/10

Na terra do coração/ Caio Fernando de Abreu

Nave, ninho, poço, mata, luz, abismo, plástico, metal, espinho, gota, pedra, lata. Passei o dia pensando – coração meu, meu coração.
Pensei e pensei tanto que deixou de significar uma forma, um órgão, uma coisa.
Ficou só com-cor, ação – repetido, invertido – ação, cor – sem sentido – couro, ação e não.
Quis vê-lo, escapava.
Batia e rebatia, escondido no peito.
Então fechei os olhos, viajei.
E como quem gira um caleidoscópio, vi:
Meu coração é um sapo rajado, viscoso e cansado, à espera do beijo prometido capaz de transformá-lo em príncipe. Meu coração é um álbum de retratos tão antigos que suas faces mal se adivinham.
Roídas de traça, amareladas de tempo, faces desfeitas, imóveis, cristalizadas em poses rígidas para o fotógrafo invisível.
Este apertava os olhos quando sorria.
Aquela tinha um jeito peculiar de inclinar a cabeça.
Eu viro as folhas, o pó resta nos dedos, o vento sopra. Meu coração é um mendigo mais faminto da rua mais miserável. Meu coração é um ideograma desenhado a tinta lavável em papel de seda onde caiu uma gota d’água.
Olhado assim, de cima, pode ser Wu Wang, a Inocência.
Mas tão manchado que talvez seja Ming I, o Obscurecimento da Luz.
Ou qualquer um, ou qualquer outro: indecifrável.
Meu coração não tem forma, apenas som.
Um noturno de Chopin (será o número 5?) em que Jim Morrison colocou uma letra falando em morte, desejo e desamparo, gravado por uma banda punk. Couro negro, prego e piano. Meu coração é um bordel gótico em cujos quartos prostituem-se ninfetas decaídas, cafetões sensuais, deusas lésbicas, anões tarados, michês baratos, centauros gays e virgens loucas de todos os sexos. Meu coração é um traço seco.
Vertical, pós-moderno, coloridíssimo de neon, gravado em fundo preto.
Puro artifício, definitivo. Meu coração é um entardecer de verão, numa cidadezinha à beira-mar.
A brisa sopra, saiu a primeira estrela.
Há moças na janela, rapazes pela praça, tules violetas sobre os montes onde o sol se pos.
A lua cheia brotou do mar.
Os apaixonados suspiram.
E se apaixonam ainda mais. Meu coração é um anjo de pedra de asa quebrada. Meu coração é um bar de uma única mesa,
debruçado sobre a qual um único bêbado bebe um único copo de bourbon,
contemplado por um único garçom.
Ao fundo, Tom Waits geme um único verso arranhado.
Rouco, louco. Meu coração é um sorvete colorido de todas as cores, é saboroso de todos os sabores.
Quem dele provar, será feliz para sempre. Meu coração é uma sala inglesa com paredes cobertas por papel de florzinhas miúdas.
Lareira acesa, poltronas fundas, macias, quadros com gramados verdes e casas pacíficas cobertas de hera.
Sobre a renda branca da toalha de mesa, o chá repousa em porcelana da China.
No livro aberto ao lado, alguém sublinhou um verso de Sylvia Plath: “Im too pure for you or anyone”.
Não há ninguém nessa sala de janelas fechadas. Meu coração é um filme noir projetado num cinema de quinta categoria.
A platéia joga pipoca na tela e vaia a história cheia de clichês. Meu coração é um deserto nuclear varrido por ventos radiativos. Meu coração é um cálice de cristal puríssimo transbordante de licor de strega. Flambado, dourado.

Pode-se ter visões, anunciações, pressentimentos,

ver rostos e paisagens dançando nessa chama azul de ouro. Meu coração é o laboratório de um cientista louco varrido, criando sem parar Frankensteins monstruosos que sempre acabam destruindo tudo. Meu coração é uma planta carnívora morta de fome. Meu coração é uma velha carpideira portuguesa, coberta de preto, cantando um fado lento e cheia de gemidos – ai de mim! ai, ai de mim! Meu coração é um poço de mel, no centro de um jardim encantado, alimentando beija-flores que, depois de prová-lo, transformam-se magicamente em cavalos brancos alados que voam para longe, em direção à estrela Veja.

Levam junto quem me ama, me levam junto também. Faquir involuntário, cascata de champanha, púrpura rosa do Cairo, sapato de sola furada, verso de Mário Quintana, vitrina vazia, navalha afiada, figo maduro,

papel crepom, cão uivando pra lua, ruína, simulacro, varinha de incenso.

Acesa, aceso – vasto, vivo: meu coração teu.

16/09/10

Caio Fernando de Abreu / Barco/ Fragmento

Eu entro nesse barco, é só me pedir.
Nem precisa de jeito certo, só dizer e eu vou.
Eu abandono tudo, história, passado, cicatrizes.
Mudo o visual, deixo o cabelo crescer, começo a comer direito, vou todo dia pra academia.
Mas você tem que remar também.
E talvez essa viagem não dure mais do que alguns minutos, mas eu entro nesse barco, é só me pedir.
Perco o medo de dirigir só pra atravessar o mundo pra te ver todo dia.
Mas você tem que me prometer que vai remar junto comigo.
Mesmo se esse barco estiver furado eu vou, basta me pedir.
Mas a gente tem que afundar junto e descobrir que é possível nadar junto.
Eu te ensino a nadar, juro!
Mas você tem que me prometer que vai tentar, que vai se esforçar, que vai remar enquanto for preciso, enquanto tiver forças!
Você tem que me prometer que essa viagem não vai ser à toa, que vale a pena.
Que por você vale a pena.
Que por nós vale a pena.
Remar.Re-amar.
Amar.