15/10/2008

Lya Luft/ Todos esses anjos.

Todos esses anjos que à noite
agitam cortinas e sussurram frases
que temes entender: se te tomarem nos braços
se te beijarem na boca,
se te entrarem no corpo,
não te darão certeza de que morrer, viver,
são igualmente suaves e difíceis
loucos e sensatos , e urgentíssimos?
Poderás enfim amar, rendendo-te aquilo
que te aflora com suas asas,
te chama com suas vozes,
te vara constantemente com essa luz,
essa dor.

Mulher Fria/ Martha Medeiros/ Frase

Te amei
como nunca amei nessa vida
e do final desse amor restou uma mulher tão fria
que nem por ti mesmo
conseguiria sentir
o amor que senti um dia .

13/10/2008

Sentido do amor / Fragmento Paixão Segundo GH/ Clarice Lispector

"..não sei mais o sentido de amor como antes eu pensava que sabia. Também do que eu pensava sobre amor, também disso estou me despedindo, já quase não sei mais o que é, já não me lembro"

Lírios/ Fragmento In:Esboço para um possível retrato / Clarice Lispector

Lírios brancos encostados
à nudez do peito.
Lírios que eu ofereço e
ao que está doendo em você.
Pois nós somos seres e carentes.
Mesmo porque certas coisas -- se não forem dadas -- fenecem.
Por exemplo -- junto ao calor de meu corpo as pétalas dos lírios se crestariam.
Chamo a brisa leve para a minha morte futura.
Terei de morrer senão minhas pétalas se crestariam.
É por isso que me dou à morte todos os dias.
Morro e renasço.

09/10/2008

Escrava, escrevo/ Frase / Martha Medeiros

Quanto mais escrava
mais escrevo
pra libertar essa mulher da vida
que me habita.

As Verdadeiras Mulheres Felizes/ Martha Medeiros/ Livro- Doidas e Santas

Acabo de ler um livro de Eliette Abecassis, uma francesa que eu não conhecia. O nome da obra, no original, é Un Heureux Événement, que pode ser traduzido para Um Feliz Acontecimento, mas é um título irônico, pois o livro trata sobre o fator que, segundo a autora, destrói as relações amorosas: o nascimento de um filho. Num tom exageradamente desesperado, a personagem narra o fim do seu casamento depois que dá à luz. Concordo que a chegada de uma criança muda muita coisa entre o casal, mas a escritora carrega nas tintas e cria um quadro de terror para as mães de primeira viagem. Se o nascimento de um filho é sempre desconcertante, é preciso lembrar que é, ao mesmo tempo, uma emoção sem tamanho. De minha parte, só tenho bons momentos a recordar, nada foi dramático. Mas mesmo que, por experiência própria, eu não compartilhe com a desolação da autora, ainda assim ela diz no livro uma frase muito interessante. Ao enumerar as diversas mazelas por que passam as criaturas do sexo feminino, ela me veio com esta: "os homens são as verdadeiras mulheres felizes". Atente para a sutileza da frase. O que ela quis dizer? Que os homens saem pela porta de manhã e vão trabalhar sem pensar se os filhos estão bem agasalhados ou se fizeram o dever da escola. Os homens não menstruam, não têm celulite, não passam por alterações hormonais que detonam o humor. Os homens não se preocupam tanto com o cabelo e não morrem de culpa quando não telefonam para suas mães. Os homens comem qualquer coisa na rua e o cardápio do jantar não é da sua conta, a não ser quando decidem cozinhar eles próprios, e isso é sempre um momento de lazer, nunca um dever. Os homens não encasquetam tanto, são mais práticos. Eu, que estou longe de ser uma feminista e mais longe ainda de ser ranzinza, tenho que reconhecer o brilhantismo da frase: os homens são mulheres felizes. Eles fazem tudo o que a gente gostaria de fazer: não se preocupam em demasia com nada.Porque nosso mal é este: pensar demais. Nós, as reconhecidas como sensíveis e afetivas, somos, na verdade, máquinas cerebrais. Alucinadamente cerebrais. Capazes de surtar com qualquer coisa, desde as mínimas até as muito mínimas. Somos mulheres que nunca estão à toa na vida, vendo a banda passar, e sim atoladas em indagações, tentando solucionar questões intrincadas, de olho sempre na hora seguinte, no dia seguinte, planejando, estruturando, tentando se desfazer dos problemas, sempre na ativa, sempre atentas, sempre alertas, escoteiras 24 horas. Os homens, mesmo quando muito ocupados, são mais relax. Focam no que têm que fazer e deixam o resto pra depois, quando chegar a hora, se chegar. Não tentam salvar o mundo de uma tacada só. E a chegada de um filho, ainda que assuste a eles, como assusta a todos, é algo para se lidar com calma, é um aprendizado, uma curtição, nada de muito caótico. Eles não precisam dar de mamar de duas em duas horas, não ficam fora de forma, não enlouquecem. Isso é uma dádiva: os homens raramente enlouquecem. Nós, nem preciso dizer. Nascemos doidas. Por isso somos tão interessantes, é verdade, mas felicíssimas, só de vez em quando, nas horas em que não nos exigimos desumanamente. Homens, portanto, são realmente as verdadeiras mulheres felizes. Que isso sirva de homenagem aos queridos, e sirva pra rir um pouco de nós mesmas, as que se agarram com unhas e dentes ao papel de vítimas porque ainda não aprenderam a ser desencanadas como eles.

Frase/ Clarice Lispector/ Mais feliz do que se pode ser

"É preciso que eu não esqueça,
que fui feliz,
que estou sendo feliz mais do que se pode ser."

Doidas e Santas/ Simpatia pelo diabo/ Martha Medeiros

Assim como não há paraíso que não seja um pouco monótono, não há inferno que seja um pouco excitante. Ou muito excitante. O diabo tenta, o diabo incomoda, o diabo perturba, o diabo veste Prada. Os bonzinhos são ótimos mas tem um guarda roupa neutro demais.

Passado /frase / Milena Gouvêa

Sorte é ter um passado doce e o açucareiro nas mãos.

Tati Bernardi/ Frase mulher que escreve

"Pior do que uma mulher que fala
o que pensa é uma mulher que escreve."

07/10/2008

Poema Martha Medeiros/ Cartas extraviadas e outros poemas

Do amor falou-se tudo e sigo e segues
entendendo quase nada, tudo é pouco diante

da incompreensão do que existe sem nome será mesmo amor o nome disso que sinto e sentes?
Disso que sinto e sentes falou-se tanto
e sigo desconhecendo bastante
de mim e de ti que sinto e sentes tudo isso
de que falamos tanto e perseguimos errantes.

03/10/2008

Depois de um quase suicídio/ Laisa Rosinski

Depois de meu suicídio o que me restou além da dor
e a vergonha de nao ter forças pra seguir em frente?
Fui condenada pelo amor, o qual quer me tirar a vida
Pois viver sem ele não vejo motivos pra seguir adiante
Preciso sentir o sol pra me sentir calor
E preciso de ti pra sentir a vida no pulsar dos dias.
Não há enfase, não há mais poesia
relembrando as palavras ditas
Por dentro cometo mais um ato de desamor próprio
Como caminhar sem direção?
Achar onde outro motivo pra alegria que tinha meu sorisso?
Onde encontrar a fonte que cesse essa dor
que acabe com meu rosto inchado que ainda lacrimeja magoa?
Puro e condenado esse amor que de mim se foi
e me deixou no inferno da eterna solidão
Sem destino sem desatino.

Amor é quando... / Fragmento / Martha Medeiros

Amor é quando você sabe tintim por tintim as razões que impedem o seu relacionamento de dar certo,
é quando você tem certeza de que seriam muito infelizes juntos, é quando você não tem a menor esperança de um milagre acontecer, e essa sensatez toda não impede de fazê-lo chorar escondido quando ouve uma música careta que lembra os seus 14 anos, quando você acreditava em milagres. Tudo isso pode parecer uma grande dor, mas é uma grande dádiva, porque a existência do amor está toda hora sendo lembrada. Dor é quando a gente está numa relação tão fácil, tão automática, tão prática e funcional que a gente até esquece que também é amor.

02/10/2008

Aprendendo a desaprender/ Martha Medeiros/ Crônica

Passamos a vida inteira ouvindo os sábios conselhos dos outros. Tens que aprender a ser mais flexível, tens que aprender a ser menos dramática, tens que aprender a ser mais discreta, tens que aprender… praticamente tudo.Mesmo as coisas que a gente já sabe fazer, é preciso aprender a fazê-las melhor, mais rápido, mais vezes. Vida é constante aprendizado. A gente lê, a gente conversa, a gente faz terapia, a gente se puxa pra tirar nota dez no quesito “sabe-tudo”. Pois é. E o que a gente faz com aquilo que a gente pensava que sabia?As crianças têm facilidade para aprender porque estão com a cabeça virgem de informações, há muito espaço para ser preenchido, muitos dados a serem assimilados sem a necessidade de cruzá-los: tudo é bem-vindo na infância. Mas nós já temos arquivos demais no nosso winchester cerebral. Para aprender coisas novas, é preciso antes deletar arquivos antigos. E isso não se faz com o simples apertar de uma tecla. Antes de aprender, é preciso dominar a arte de desaprender.Desaprender a ser tão sensível, para conseguir vencer mais facilmente as barreiras que encontramos no caminho. Desaprender a ser tão exigente consigo mesmo, para poder se divertir com os próprios erros. Desaprender a ser tão coerente, pois a vida é incoerente por natureza e a gente precisa saber lidar com o inusitado. Desaprender a esperar que os outros leiam nosso pensamento: em vez de acreditar em telepatia, é melhor acreditar no poder da nossa voz. Desaprender a autocomiseração: enquanto perdemos tempo tendo pena da gente mesmo, os demais seguiram em frente.A solução é voltar ao marco zero. Desaprender para aprender. Deletar para escrever em cima.Houve um tempo em que eu pensava que, para isso, seria preciso nascer de novo, mas hoje sei que dá pra renascer várias vezes nesta mesma vida. Basta desaprender o receio de mudar.

Asas de um amor/ Laisa Rosinski

Desvenda-me como teu segredo
Semea-me como teu desejo
Reluzindo de luz tuas asas
Encostam nas minhas e juntos
Pelo céu afora iremos desbravar
A ternura de uma doce canção
O inferno de um bom paraíso
A imensidão de um amor sem fim
Sem pressa e sem vontade nenhuma
de se acabar...